“(…)… o enigma era que o enigma tinha sido deixado em nossa porta, aquele embrulho pardo, com tulipas cruzadas dentro do caprichoso nó que surgia logo depois de dois laços, laços à moda dos usados em presentes, presentes para noivas, noivas claras em manhãs de névoa, névoa sobre o cume da serra, serra no lado sul da nossa cidade.
O enigma. Só em olhar para o enigma sentíamos o calafrio das noites de julho, este mês de luas apunhaladas, punhais encravados na face oculta de tais luas, jorro de perguntas em cada furo que o punhal fazia no corpo dessas luas, um conto.
Um conto talvez nasça de coisas assim tão apunhaladas.
O leitor. O leitor pouco sabe (nunca saberá) sobre o que há dentro do embrulho, o embrulho do enigma, uma talvez cabeça, mil notas de um dinheiro desaparecido, um livro, a mão de um pusilânime ainda com movimento nos dedos, uma foto de Godard, um coração.
Um coração dentro do embrulho pardo. Talvez. Um enigma é sempre um enigma…”.
